Uma breve sinopse da HISTÓRIA DO KENDO MODERNO

Uma breve sinopse da
HISTÓRIA DO
KENDO MODERNO

por Alex Bennett

O presente artigo foi originalmente publicado na revista Kendo World número 3.1, de 2004.

Tradução portuguesa por Joaquim Coelho.

A RESTAURAÇÃO MEIJI E O KENDO
A arte do kendo moderno, hoje praticada por milhões de pessoas no Japão e no mundo, evoluiu de técnicas tentadas e testadas nos campos de batalha. À medida que a tenka taihei, ou “paz através do território” se consolidava durante o Período Tokugawa (1603-1867), as artes marciais adquiriram um novo sentido e papel para a classe dominante dos samurai. Sem mais guerras para travar, as artes militares eram estudadas como métodos de auto-desenvolvimento, com uma ênfase crescente colocada nos valores estéticos e espirituais, em detrimento dos seus objectivos primários, mutilar e matar. No Período Tokugawa assistiu-se ao florescimento das artes marciais com uma popularidade nunca antes vista e durante os 250 anos de paz, as escolas de artes marciais (bugei-ryuha) aumentaram exponencialmente o seu número, chegando algumas estimativas a apontar cerca 700 escolas.

O respeito japonês pelas artes marciais tradicionais teve um fim abrupto com a chegada dos “Black Ships” (Navios Negros) do Comodoro Perry às águas do arquipélago em 1853. Depois de séculos de isolamento auto-imposto (sakoku), o Japão deu por si antiquado, ultrapassado em termos bélicos e descontextualizado em relação às nações do Oeste.

Apesar do isolamento em relação ao resto do mundo ter dado às artes marciais japonesas tempo para se transformarem em fascinantes antiguidades guerreiras, ricas em rituais simbólicos e espirituais, elas não tinham hipótese face ao poder de fogo devastador das nações estrangeiras, que devassavam as suas costas exigindo direitos e privilégios especiais. A chegada do Comodoro Perry acordou os japoneses da sua falsa sensação de segurança e, com a Restauração Meiji, eles deitaram mãos à obra para recriar a sua nação, utilizando as últimas tecnologias e ideias que o Oeste tinha para oferecer.

E isso significou essencialmente que as artes marciais japonesas, como o kenjutsu, cairam na obscuridade devido à percepção da sua óbvia falta de aplicação prática. Espingardas, canhões e um novo exército de recrutas, estavam na ordem do dia se o Japão pretendia actualizar-se em relação ao resto do mundo. Na época, expressões como wakon-yosai (espírito japonês-tecnologia estrangeira) abundavam, à medida que se lutava para educar as massas, armar a nação e nivelar a sua nova e moderna sociedade civil com a dos ocidentais.

O kenjutsu, juntamente com as outras artes marciais, foi considerado um símbolo da agora antiquada hierarquia feudal, que colocava a minoria bushi acima de todas as outras classes, e assim relegado como um arcaísmo sem qualquer sem sentido ou uso prático na nova e moderna sociedade emergente. Com a abolição da Academia Militar, o Kobusho, em 1866 e a dissolução dos han (domínios feudais) e das hanko (escolas dos domínios) em 1871, as artes marciais deixaram de ser incluídas nos currículos da escolas, os quais foram refeitos baseados em modelos ocidentais, visando educar as massas e não apenas alguns privilegiados.

Os bushi rapidamente perderam todos os seus privilégios e o prego final no seu caixão foi o edital que lhes negava o uso do item que acreditavam representar a sua própria alma, a katana. Muitos deles foram relegados para um mundo de desemprego e pobreza. Tirando alguns bushi de alta patente, que receberam posições de destaque nos órgãos governativos do novo governo japonês, a maioria encontrou-se sem posição social, emprego ou rendimentos, tendo uma grande parte dos mesmos ficado simplesmente reduzida à miséria. No meio de toda esta mudança social, um grupo particularmente atingido foi o dos instrutores de bujutsu, quer os empregados pelos Bakufu, quer os que geriam os seus próprios dojos nas cidades. Sem salários e sem estudantes nos dojos, muitos subsistiam sem saber onde iriam arranjar a próxima refeição.

SAKAKIBARA KENKICHI E OS GEKIKEN-KOGYO
Um desses bushi era um homem chamado Sakakibara Kenkichi. Um homem orgulhoso com estatuto hatamoto, ele lamentava o declínio da esgrima e das outras artes marciais tradicionais. Sendo um homem mais de acção do que de palavras, resolveu fazer renascer o interesse popular pelas artes marciais. Os resultados desta iniciativa foram uma série combates públicos de demonstração com artistas marciais de renome, conhecidos como gekiken kogyo (gekiken ou gekken=kendo, kogyo=espectáculo/performance).

O primeiro desses curiosos circos marciais teve lugar a 11 de Abril de 1873 e durou cerca de 10 dias. Qualquer cidadão, independentemente da sua idade, estrato social ou sexo, era bem vindo desde que pagasse bilhete para entrar. Os espectadores eram também encorajados a participar nos combates se se sentissem à altura do desafio.

A inovação de Sakakibara foi extremamente bem recebida. Durante o período Edo, o bujutsu era basicamente um monopólio cultural dos bushi, mas agora toda a gente tinha a oportunidade de ver os melhores espadachins do país em acção. Apesar dos preços elevados dos bilhetes, as bancadas estavam sempre totalmente ocupadas. O sucesso de Sakakibara inspirou demonstrações semelhantes um pouco por todo o país, dando origem a uma explosão de eventos gekiken kogyo, com inúmeras troupes de artistas marciais viajantes.

Para além de serem um sucesso popular, estes eventos proporcionavam a um grande número de peritos de bujutsu empobrecidos um meio de subsistência. No entanto, ainda mais significativo para os praticantes modernos de kendo foi o papel que os gekiken kogyo tiveram assegurando a sobrevivência das artes marciais tradicionais. Poucos anos depois do começo da Restauração Meiji as artes marciais estavam praticamente esquecidas. Porém, os gekiken kogyo trouxeram-nas de novo para a ribalta. Não é exagero dizer que sem estes eventos e sem os esforços de Sakakibara Kenkichi para os criar, o kendo podia não ter sobrevivido a este período. O momento escolhido revelou-se crucial para o kenjutsu e para as outras artes marciais tradicionais e permitiu-lhes partir para um novo estágio de desenvolvimento, por oposição a uma pura e simples extinção.

Mesmo assim, existe também um lado negativo e muito discutido dos efeitos dos gekiken kogyo. Para muitos críticos, foi lamentável que se tivesse de ver os outrora orgulhosos bushi, a vender as suas almas e a prostituir os seus conhecimentos marciais a troco de umas moedas. Por outro lado, em nome do entretenimento, muitos espectáculos estavam repletos efeitos sonoros e de técnicas mais sensacionais do que práticas, tal como acontece, por exemplo, nos espectáculos de wrestling dos nossos dias. Isso foi visto como uma negação do verdadeiro espírito das artes marciais e, para grande desagrado de uma linha mais dura de tradicionalistas, como um contributo para a subsequente bastardização desportiva das artes. De qualquer forma, a importância histórica dos gekiken kogyo é inegável e, de certa maneira, é graças a este capítulo da história que ainda hoje temos kendo.

O KEISHICHO KENDO
Hoje em dia, muitos dos peritos de kendo mais graduados do Japão têm alguma ligação com a polícia. A relação entre o corpo policial e o kendo teve origem há muito tempo atrás, nos estágios de desenvolvimento iniciais do sistema policial. Quando Sakakibara organizou as primeiras demonstrações, a palavra espalhou-se rapidamente e inúmeras troupes se formaram, depois de receberem autorização oficial para levarem a cabo os seus próprios espectáculos nas mais variadas regiões do país. Depois de assistirem ao seu sucesso, as autoridades proibiram as demonstrações com medo que os peritos de bujutsu se congregassem para conspirar. No entanto, a sua legalidade foi reposta alguns anos depois e os gekiken kogyo rapidamente recuperaram a popularidade.

A grande diferença foi que, desta vez, não serviam apenas para o entretenimento dos espectadores, mas eram também um meio importante de treino entre peritos. Além do mais, tornaram-se o local de recrutamento para a recém-formada força de polícia. O que o Japão precisava nesses tempos, depois de a Rebelião de Satsuma(1) ter sido esmagada, era de agentes de polícia eficientes e o governo procurava de todas as maneiras reforçar eficazmente a sua força policial.

O então Comissário da Polícia Kawaji Toshiyoshi tinha desenvolvido grande respeito pela Divisão Battotai, a qual, armada apenas com espadas, se tinha portado magnificamente na batalha de Taharazaka. Subsequentemente redescobriu o verdadeiro valor e o potencial do bujutsu tradicional, em particular do kenjutsu. Antes de partir em viagem para inspeccionar as forças policiais de além-mar em 1879, publicou as suas reflexões num ensaio intitulado Kendo Saiko-ron (Reviver o Kendo), debruçando-se sobre o valor das artes marciais tradicionais e sobre a importância de se estar sempre bem treinado e preparado tal como os espadachins de outrora sempre estavam.

Defendia que os agentes da autoridade deviam estar em boa forma, não só para se defenderem, mas também para melhor capturarem os eventuais malfeitores. Isso essencialmente o motor de arranque para que se começasse a contratar peritos de kenjutsu de renome para servirem de instrutores e treinarem os recrutas.

Em 19 de Janeiro de 1880, as regras da Academia de Polícia foram estabelecidas e ficou estipulado que todos os cadetes deveriam ter instrução de kenjutsu. Devido a esse facto, as demonstrações gekiken, que se encontravam de novo de vento em popa por todo o país, depois de temporariamente banidas, tornaram-se alvo dos recrutadores em busca de potenciais candidatos para ensinar kenjutsu na polícia. Os espadachins estrelas dos espectáculos estavam cientes das oportunidades que os aguardavam se desempenhassem bem o seu papel e, um por um, a nata dos artistas marciais deu por si com carreiras confortáveis, trabalhando como instrutores de kenjutsu principalmente para a Keishicho (força de polícia da Prefeitura de Tokyo).

Foi uma volta de 180º na vida de alguns espadachins, mas, essencialmente, anunciou o fim dos gekiken kogyo. À medida que as estrelas dos espectáculos encontravam um melhor emprego na polícia, o talento das troupes reduzia-se tal como o interesse do público. Com excepção de algumas, como a troupe comandada por Satake Kanryusai que viajava pelas províncias, todas as outras morreram de morte natural, pondo fim a uma era.

Uma vez adoptado pela força de polícia, o kenjutsu continuou a desenvolver-se e tornou-se parte integrante do estilo de vida dos agentes. Para além de organizar competições, o Keishicho esteve activamente envolvido no melhoramento do kenjutsu ao criar katas e também um sistema básico de graduações. No que concerne às Keishicho Kata, é difícil determinar com exactidão quando foram criadas, mas os registos (da administração do Keishicho) de uma demonstração de vários kata no Keishicho Bujutsu Taikai (torneio de artes marciais) de 1886 sugere que os mesmos tenham sido finalizados nessa época e denominados Keishicho-ryu; são ainda hoje, uma tradição praticada por alguns membros da Polícia Metropolitana de Tokyo.

O Keishicho também foi responsável pelo seu próprio sistema de graduações em 1885. Estas eram concedidas para definir o nível técnico do agente, ao qual era atribuída uma graduação em kyu apropriada. O Dai Nihon Butokukai (ver abaixo) criaria mais tarde, em Março de 1917, o seu sistema de graduações, baseado em dan para o kendo e para o judo, mas o Keishicho continuou com o seu próprio sistema. Quando o “Keishicho Kendo” recomeçou em 11 de Maio de 1953, depois da proibição que se seguiu à derrota do Japão na II Guerra Mundial, aboliu o seu sistema e adoptou o da recém-formada Federação Japonesa de Kendo, baseada em graduações de dan e títulos honorários ou shogo. Nesse momento, todos os graus do keishicho foram abolidos, depois de mais de 70 anos de uso.

O KENDO NAS ESCOLAS
O caminho para fazer com que o kendo fosse aceite nos currículos das escolas foi longo e complicado. Em 1870 alguns membros do governo fizeram saber das suas inibições em ocidentalizar completamente o sistema de ensino e de como gostariam que ao menos alguns aspectos “japonesistas” fossem mantidos nos programas. E isso, especialmente no caso dos programas de Educação Física (EF) que se centrava sobretudo em ginástica ocidental. Alguns levantaram mesmo a questão se não seria possível desenvolver um programa de EF baseado nas artes tradicionais do bujutsu japonês. Por outro lado, havia muitos que se mostravam mais cautelosos acerca da utilização das artes marciais para semelhante fim.

Para investigar os eventuais benefícios e perigos do bujutsu nas escolas, o Ministério da Educação levou a cabo uma série de estudos oficiais. Dignos de nota são o estudo de 1883 feito pelo Instituto Nacional de Ginástica (Taiso Denshujo) e o de 1896, uma investigação executada pelo Comité de Conselheiros de Saúde Escolar (Gakko Eisei Komonkai).

A investigação de 1883 concluiu que os benefícios eram:
1 – um meio efectivo de melhorar o desenvolvimento físico;
2 – desenvolve a vitalidade;
3 – eleva o espírito e aumenta o moral;
4 – elimina a fraqueza de carácter que substitui por vigor;
5 – fornece ao perito técnicas de auto-defesa em caso de perigo.

E os perigos eram os seguintes:
1 – pode provocar um desenvolvimento físico desequilibrado;
2 – há sempre perigo presente no treino;
3 – dificuldades em determinar o grau apropriado para os exercicios, especialmente porque os alunos mais fortes fisicamente têm de treinar em conjunto com indivíduos mais fracos;
4 – pode encorajar comportamentos perigosos devido ao empenho emocional;
5 – estimula o desejo de lutar o que pode manifestar-se numa vontade de ganhar a todo o custo;
6 – existe o perigo de encorajar um sentido de competitividade pervertido que pode chegar ao extremo da criança recorrer a tácticas desonestas;
7 – dificuldade em manter uma metodologia instrucional unificada no caso de um grande número de alunos;
8 – requer um espaço amplo para levar a cabo os treinos;
9 – apesar de o jujutsu apenas requerer um keiko-gi (equipamento de treino) o kenjutsu requer o uso de armadura e outro equipamento especial que pode ser caro e difícil de manter limpo e higiénico.

Por isso, a conclusão finalmente tomada foi que seria inapropriado introduzir o bujutsu no currículo escolar. Por um lado, era reconhecido que se o bujutsu fosse incluído, poderia ser um complemento benéfico no sistema de conhecimento escolar, graças à sua ênfase no desenvolvimento espiritual. Mas por outro lado, era tido como adverso aos benefícios psicológicos e de saúde esperados das actividades de educação física. Era apreendido como negativo para o desenvolvimento físico equilibrado, encorajador da violência, da competição, perigoso, difícil de encontrar um denominador comum entre os estilos a ensinar, caro e pouco higiénico.

A investigação posterior (a de 1896) teve resultados muito semelhantes, mas sugeria que o bujutsu poderia ser ensinado nas escolas como actividade extra-curricular para rapazes com idade superior a 16 anos e boa saúde.

Outro grande problema era o facto de não existir um método estabelecido para ensinar grupos de estudantes. Tradicionalmente, as artes marciais tinham sempre sido ensinadas de um para um e o conhecimento era passado de professor para aluno, individualmente. No ambiente educacional moderno isso era impossível. Assim, tinha de haver uma nova maneira revolucionária de tratar este problema particular. O primeiro esforço concertado para o fazer foi a criação do “bujutsu taiso”, ou seja, uma ginástica marcial.

Em 1894/95, durante a guerra Sino-Japonesa, uma série de educadores tentaram resolver esses problemas ao desenvolver uma forma de ginástica que utilizavam técnicas marciais. A ideia foi bem recebida e em breve muitas escolas através do Japão permitiam aos seus alunos participar nos recém-criados exercícios de ginástica que recorriam ao uso de bokuto ou naginata.

Um dos grandes instigadores do sistema foi Ozawa Unosuke. Ele defendia que o propósito do desenvolvimento do “bujutsu taiso” era não apenas ser uma ferramenta de educação, mas também para ser utilizado para “criar uma nação de gente com físicos em nada inferiores aos das nações ocidentais”. Também defendia que os problemas correntes enfrentados pelo sistema de ginástica, tal como a dificuldade em obter equipamento e instalações adequadas podiam ser ultrapassados ao introduzir o bujutsu no sistema educativo. Como actividade curricular, os exercícios derivados do bujutsu seriam um meio de desenvolver a condição física e como actividade extra-curricular seriam excelentes exercícios ou jogos que encorajariam a disciplina e o bem-estar físico global.

Além de Ozawa, havia outros que também experimentavam em desenvolver sistemas de exercícios de ginástica indígenas, baseados no bujutsu. De particular importância foi Nakajima Kenzo que tinha estudado Jikishinkage-ryu Naginata na infância. Não se sabe se Ozawa e Nakajima algumas vez colaboraram, no entanto, os esforços de ambos fizeram com que as suas iniciativas se espalhassem através da nação, com seminários levados a cabo em várias localidades e recebidos com considerável entusiasmo.

Mesmo assim havia críticos ferozes que se opunham veementemente aos seus sistemas. Os motivos eram variados, mas o mais comum era que as técnicas utilizadas eram irrealistas e ineficazes, prestando muito pouca atenção ao hasuji (direcção de corte da lâmina) e possuindo muitas voltas, reviravoltas e movimentos ostensivos. Muitos diziam não conseguir ver nenhuma diferença entre aquilo e uma outra forma popular de exercício que consistia em girar e rodopiar um bastão (N.Tr.: baton twirling no original).

Depois de décadas de confusão acerca do que deveria ser ensinado no programa de aulas de educação física, o Ministério da Educação publicou em 1913 o Programa Escolar de Ginástica (Gakko taiso kyoju yo moku). O programa prescrevia uma abordagem Linguiana [N.Tr.: de Pehr Ling (Smaland 1776 – Estocolmo 1839), vulgo Ginástica Sueca] à educação física, tal como era moda na Grã-Bretanha, América e Escandinávia. Exercícios militares e jogos (yugi) serviam de suplemento e cada escola deveria definir o seu próprio currículo seguindo as directivas estabelecidas pelo ministério. Este programa essencialmente marcou o fim das iniciativas que visavam integrar o bujutsu como forma de educação física.

Apesar das críticas, o bujutsu taiso provara que podia ser praticado ou ensinado em grupo, sem necessidade de se ter um par ou de equipamentos dispendiosos, contrariamente às opiniões anteriores. Desse ponto de vista, é óbvio concluir que isso teve um profundo efeito na metodologia do ensino dos principiantes nas artes do budo que subsequentemente se desenvolveu. Nesse sentido, e para além de educadores como Ozawa e Nakajima, houve um pequeno número de peritos de bujutsu que, ou os apoiou ou desenvolveu os seus próprios sistemas semelhantes ao da ginástica baseados nas técnicas e nos katas dos seus ryuha como modo de ensinar principiantes. Os livros dedicados ao assunto começaram a surgir em 1890. Pouco depois já havia a uma variedade enorme de livros publicados que eram essencialmente colaborações entre educadores e artistas marciais, à medida que aprendiam uns com os outros as melhores maneiras de adaptar as técnicas do bujutsu ao serviço da educação física das escolas. Não foi senão em 1904-1905 que começam a aparecer livros escritos como livros técnicos de bujutsu (por oposição ao taiso) destinados a ensinar principiantes, mas obviamente ainda muito influenciados pelo estilo e metodologias do taiso. Os artistas marciais evitavam referir-se ao que faziam como bujutsu-taiso e preferiam em lugar disso descrever as suas iniciativas como “metodologia de ensino em grupo”.

De facto, depois de 1911, quando o bujutsu foi finalmente aceite nos programas oficiais das escolas, e apesar de actividade opcional, muitos renegaram e teceram sérias críticas às primeiras iniciativas do bujutsu taiso como não sendo mais do que meros exercícios de demonstração com bastões. O qual não estava, notavam rudemente, em nada ligado ao verdadeiro bujutsu. Esta crítica não é exactamente justa. O que é interessante de reparar é a influência que a ginástica ocidental teve no desenvolvimento do bujutsu taiso e eventualmente no método de ensino unificado do budo que lhe sucedeu. Este ponto torna-se particularmente fascinante quando temos em consideração a retórica moderna que reclama o budo como sendo cultura japonesa tradicional. É caso para imaginar o que será que “tradicional” significa neste contexto.

O DAI NIHON BUTOKUKAI (GRANDE SOCIEDADE JAPONESA DA VIRTUDES MARCIAIS)
Para lá das inovações já mencionadas, indubitavelmente que a formação do Dai Nihon Butokukai em 1895 foi um grande ponto de viragem na tentativa de popularizar as artes marciais nas escolas e assegurar a sua sobrevivência no século seguinte e por diante. Por esta altura o Japão seguia determinado o seu caminho de se modernizar e começava a encetar actividades expansionistas com um fervor nacionalista comparável a qualquer um dos outros poderes colonialistas da época. A guerra Sino-Japonesa (1894-1895) encorajou um surto de nacionalismo no país o qual, por sua vez, criou um aumento do interesse no budo, como já vimos.

O ano de 1895 marcou 1100º aniversário da oficialização de Kyoto como capital do Japão. Por essa altura (em 795 da nossa era), diz-se que o Imperador Kanmu terá construído o Butokuden (Casa/Palácio das Virtudes Marciais) para promover o espírito marcial e encorajar os guerreiros a desenvolver ainda mais as suas capacidades militares. Assim, em sua homenagem e na crista da onda do nacionalismo crescente, o Dai Nihon Butokukai foi criado em Kyoto sob a alçada do Ministério da Educação e com o patrocínio do Imperador Meiji. Os seus objectivos eram promover e padronizar a multitude de sistemas e disciplinas marciais dispersas por todo o país. Em 1899, o Butokuden foi reconstruido perto do espaço do recém-edificado Templo Heian em Kyoto.

Em 1902 foi criado um sistema de recompensas destinado a reconhecer os indivíduos que se destacavam na promoção do budo. Em 1905 surgiu uma divisão destinada a formar instrutores de bujutsu a qual foi revista e melhorada uma série de vezes até à formação em 1911 da Butoku Gakko (Escola das Virtudes Marciais). Escola que se tornou depois na Senmon Gakko (Escola Especial de Bujutsu) em 1912 e na Budo Senmon Gakko in 1919 quando o termo bujutsu foi oficialmente substituído por budo, de modo a enfatizar a “via” marcial, ou seja, os aspectos espirituais das artes marciais(2).

Deste modo, o Butokukai foi fundamental na promoção do budo através do reconhecimento de peritos proeminentes, treino de professores, criação de eventos e torneios especiais. A Budo Senmon Gakko (ou Busen como se tornou conhecido) juntamente com a Tokyo Koto Shihan Gakko (Escola Superior de Tokyo) abriram o caminho para a produção de jovens instrutores que, depois de colocados em escolas por todo o país, ensinavam as artes às crianças.

A UNIFICAÇÃO DOS KATA
Havia no entanto alguns problemas para resolver antes que a popularização nacional do budo fosse bem sucedida. Numa tentativa de unificar as inúmeras tradições de kenjutsu e as suas técnicas em algo que transcendesse a filiação a um grupo ou a uma tradição clássica específicas, o Butokukai decidiu desenvolver uma série universal de kata que poderiam ser praticados por todos independentemente dos seus antecedentes marciais. Esta foi a maneira encontrada para melhor popularizar a arte e manter controle durante a sua disseminação nacional.

Watanabe Noboru chefiou o primeiro comité formado para levar a cabo essa tarefa. Em 1906 apresentaram o resultado dos seus esforços na forma de 3 kata: Jodan (ten=céu), Chudan (chi=terra) e Gedan (jin=humano). No entanto, surgiu grande oposição a esta série de 3 kata que acabou por ser posta de lado sem nunca chegar a ter a circulação nacional para a qual foi desenvolvida. O assunto tornou-se ainda mais urgente quando foi decidido que o kenjutsu seria incluído como parte do currículo de educação física de 1911.

Uma vez mais o Butokukai juntou um comité para desenvolver uma série de kata que tornasse possível uma disseminação efectiva e unificada. Os 5 mestres de kenjutsu, conhecedores de vários ryuha e responsáveis por este trabalho, foram Negishi Shingoro, Tsuji Shimpei, Naito Takaharu, Monna Tadashi e Takano Sasaburo. Em 1912 apresentaram os Dai Nippon Teikoku Kendo Kata (Kendo Kata do Grande Japão Imperial) que consistiam em 7 kata de tachi contra tachi e 3 kata de tachi contra kodachi.  Foram feitas inúmeras mudanças e emendas na versão original ao longo dos anos que se seguiram mas, na sua essência, essa ainda hoje constitui o que os adeptos modernos praticam e que chamam Nihon Kendo Kata. Estes kata contribuíram enormemente para a expansão do kenjutsu e criaram as ferramentas para que se pudesse ensinar um estilo unificado em todas as escolas do Japão.

O BUDO E NACIONALISMO
Apesar de tudo, o bujutsu não se tornaria uma disciplina obrigatória das aulas de educação física senão em 1931. Os anos 30 foram uma era de militarismo no Japão. Desde tão cedo como 1928, o Ministério da Educação anunciava que “todas as ideias importantes devem ser eficazmente “japonizadas”, pensamentos fora da regra devem ser eliminados e os educadores devem apoiar com firmeza a Kokutai (Política Nacional) bem como compreender o seu verdadeiro significado.”

Em Janeiro de 1931, a meio do “Incidente da Manchúria”, as regras das escolas secundárias foram revistas de novo para que o kendo e o judo se tornassem disciplinas obrigatórias visto que eram “reconhecidas como úteis para construir um espírito patriótico resoluto e determinado e como um bom treino para a mente e para o corpo”. O Kyudo foi o seguinte, em 1933.

A meio da década de 1930 o governo japonês era maioritariamente controlado por militares. Claro que o pensamento militarista estava profundamente impregnado nas escolas, que recebiam ordens para realçar o patriotismo e o seishin kunren, ou “treino espiritual”. Esta tendência intensificou-se com a Guerra do Pacífico e o taiso (ginástica) começou a ser chamado tairen (disciplina física) em 1941. Por volta de 1942 o governo tinha banido a participação em quase todos os desportos ocidentais e uma ainda maior ênfase foi colocada nas artes marciais. Em Março de 1942 as aulas de educação física nas escolas focavam-se no kendo, kyudo, judo, naginata (para as raparigas) e prática de tiro. Os métodos de treino nessas artes eram duros, tendo sempre em mente a aplicação em combate. O kendo também foi adaptado durante este período e enfatizava a execução de um golpe devastador e sacrificatório como ideal (em vez da habilidade técnica) para facilitar a vitória em combate. Em nome do realismo no campo de batalha, as competições realizavam-se com o sistema de ippon-shobu e assim, a primeira pessoa que marcasse um ponto ganhava, por oposição ao sistema de “à melhor de 3 ippon”. O shinai também foi encurtado para reproduzir o tamanho de uma espada real. Chaves e projecções eram encorajadas no combate a curta distância.

A PROIBIÇÃO DO BUDO
Depois da derrota japonesa na II Guerra Mundial, as artes marciais foram proibidas pelas Forças de Ocupação. Aqui, gostaria de deixar uma explicação acerca do que aconteceu às pessoas que instigaram a proibição. O que se segue é um SCAP Report (3) referente ao papel do Butokukai (e portanto, das artes marciais) na instigação de fervor nacionalista na juventude e as razões para promover a proibição do budo do pós-guerra.

“Com a ascensão gradual dos militares como factor de controle dominante da política japonesa, que culminou com a nomeação de Tojo para Primeiro-Ministro em 1941, o Butokukai tornou-se cada vez mais num meio de instigar o espírito militarista entre o povo do Japão. Ashida Hitoshi, que era Ministro da Segurança Social no gabinete de Yoshida, quando entrevistado acerca dessa sociedade deferiu: “Com a ascensão do regime Konoye em 1939, houve tendência para amalgamar a sociedade com o Sistema de Regras Tenno (imperador), mas só após o começo da guerra é que a organização passou a ser controlada pelo governo. O Primeiro Ministro Tojo tornou-se automaticamente o presidente nacional que dirigia as actividades. A organização foi transformada para fins militares. Juken-jutsu (prática de baioneta) e shakegi (tiro com espingarda) foram incluídas no programa”. Revelando mais acerca das actividades do Butokukai durante a guerra, Watanabe Toshio, um gestor empresarial depois da rendição, declara que: “A organização foi colocada sob a alçada de 5 ministérios: Administração Interna, Educação, Segurança Social, Exército e Marinha. Um subsídio foi concedido pelo governo à sociedade para despesas operacionais adicionais. O nacionalismo militante era enfatizado. As estatísticas de Março de 1941 revelavam um total de 3.178.000 membros.”

O relatório continua a delinear as actividades do Butokukai depois da rendição.

“No seguimento da rendição, os dirigentes do Dai Nippon Butokukai, possivelmente receando que as autoridades de ocupação lhes ordenassem a dissolução, reorganizaram-se para a sua situação pré-1942. Este passo foi dado pela sociedade para esconder o seu papel durante a guerra e para continuar as suas actividades sob uma camuflagem de reorganização democrática. A reorganização que teve lugar foi superficial e destinou-se a substituir os dirigentes que tinham sido capturados como criminosos de guerra ou os que, tendo caído sob a alçada da directiva da purga, poderiam desacreditar a sociedade aos olhos dos ocupantes se continuassem nos seus postos.

O Assistente em Chefe de Estado, G-2, ao recomendar a dissolução da organização declarou:

“O papel oficial da organização não mudou, tanto quanto revela a sua doutrina e essa é: ‘promover as artes militares e contribuir para o treino da população’.” De facto, Shimura Hisaku, um dirigente proeminente do Butokukai em Ibaragi, disse por essa altura: “Desejamos dar a conhecer ao grande público a verdadeira natureza das artes militares através de eventos contínuos em vários locais e divulgar a razão porque devemos absorver o verdadeiro espírito das artes marciais para podermos reconstruir um Japão pacífico. Queremos que as pessoas percebam que as artes militares não são ferramentas para a guerra mas para a paz e que são, na verdade, as artes nacionais do Japão.” A contradição inerente a semelhante racionalização devia ter sido óbvia, mas o Governo Japonês hesitou em juntar o Butokukai à lista de organizações proscritas, visto que ao fazê-lo colocaria os seus dirigentes na posição de sujeitos a purgar”.

Sem grande surpresa, o GHQ (N.Tr.: Quartel General das Forças de Ocupação) ordenou que o Butokukai fosse dissolvido.

“Tendo em conta os factos, o Assistente em Chefe de Estado, G-2, recomenda num memorandum ao Chefe de Estado: “Dissolução do Dai Nippon Butokukai por ordem do Governo Imperial do Japão, de acordo com o estipulado no SCAPIN 548, parágrafo If, por se tratar de uma organização ‘que proporciona treino militar ou para-militar’ e que visa a “perpetuação do militarismo ou do espírito marcial no Japão’.” O referido parágrafo I f do SCAPIN 548 diz: “É proibida a formação de qualquer partido político, associação ou outra organização e qualquer actividade por parte de qualquer um deles, ou qualquer indivíduo ou grupo, cujo propósito, ou efeito de sua actividade proporcione treino militar ou para-militar”. No seguimento deste memorandum o Governo Japonês foi oralmente instruído para juntar o Dai Nippon Butokukai à lista de organizações no Apêndice A do SCAPIN 548 e para desmantelar a organização e todas as suas filiais, bem como quaisquer outras organizações por ela controladas. É interessante notar que em 1943 o Ministério Público do governo dos Estados Unidos listava uma série de filiais do Butokukai existentes na América num grupo de organizações subversivas que incluía também o Kokuryu Kai (Sociedade do Dragão Negro) um grupo famoso pelas suas actividades terroristas em nome da política.

O KENDO NO PÓS-GUERRA
Durante alguns anos o som dos golpes de bambu e os kiais de gelar o sangue mal se faziam ouvir no Japão. Claro que havia treinos mantidos em segredo, mas oficialmente o kendo e as outras artes do budo tinham sido banidas. No entanto, ainda havia incondicionais suficientes para instigar um movimento para que o kendo regressasse e fosse legal de novo. Em Maio de 1948 uma demonstração de esgrima e de kendo foi efectuada em Tokyo. No ano seguinte, em Setembro de 1949, os alunos da Federação de Kendo dos Colégios de Tokyo criaram o Clube de Kendo de Tokyo e começaram a tentar fazer reviver o kendo, como um “desporto” apropriado para a sociedade democrática do pós-guerra. E o que sugeriram foi o shinai kyogi (desporto de shinai). Como o nome sugere, o aspecto desportivo do kendo era o mais importante e as aplicações combativas de antes e durante a guerra foram conscientemente retiradas.

O shinai usado no shinai kyogi era diferente do instrumento convencional de 4 ripas. O terço superior era dividido em 32 ripas, o terço central em 16 ripas e a terça parte final, a mais próxima do punho, dividido em 8 ripas. Essas ripas eram completamente envolvidas por uma bainha de cabedal assemelhando-se o todo a um fukuro-shinai do século 18. O equipamento protector parecia-se mais com o da esgrima ocidental e foi produzido tendo em conta o factor económico. Os praticantes não usavam os tradicionais keikogi e hakama, mas sim camisas e calças. A competição era conduzida num espaço definido e com um tempo limite de duração ao fim do qual o “jogador” que marcasse mais pontos era considerado vencedor. Havia também faltas atribuídas por penalidades cometidas, não eram permitidos choques corporais (tai-atari) e emitir mais do que um leve grito era também proibido. Tal como no kendo de hoje, os encontros eram presididos por três árbitros.

Com a formulação deste novo desporto, a Federação Japonesa de Shinai Kyogi foi fundada em 1950 e continuou a propagar e refinar as regras e a metodologia da nova criação desportiva. Em 1952, o shinai kyogi foi permitido pelas autoridades como disciplina de opção nas escolas secundárias e liceus. No mesmo ano foi criada a Federação Japonesa de Kendo e o kendo convencional passou uma vez mais a ser permitido, mas numa forma menos violenta do que na década anterior. Nessa altura o shinai kyogi e o kendo coexistiram, apesar de muita oposição por parte do primeiro. Em 1957, o shinai kyogi e o kendo foram combinados num só para se transformar no ‘gakko kendo’ (kendo escolar). Nessa altura a Federação Japonesa de Shinai Kyogi foi dissolvida. Apesar das críticas ao shinai kyogi, é inegável que foi um factor crucial no renascimento do kendo e que teve um efeito profundo no modo como o kendo do pós-guerra se desenvolveu, especialmente no que às regras de competição diz respeito. É interessante que, nas recentemente publicadas 625 páginas do livro Kendo no Rekishi (História do Kendo), compilado pela Federação Japonesa de Kendo, apenas um parágrafo seja dedicado ao shinai kyogi.

No seguimento da inauguração da Federação Japonesa de Kendo em 1952, os 1ºs Campeonatos de Kendo do Japão tiveram lugar em 1953, a Federação de Kendo das Faculdades Japonesas formou-se nesse mesmo ano, Federação Empresarial de Kendo em 1957 e a Federação Japonesa de Kendo Escolar em 1961.

O ano de 1964 é um ponto de viragem para o budo, com a inclusão do Judo nos Jogos Olímpicos de Tokyo. Por essa altura o Nippon Budokan foi construído no centro de Tokyo e o kendo, kyudo e sumo foram apresentados como desportos de demonstração no evento. Esta exposição internacional do kendo culminou com a criação da Federação Internacional de Kendo (FIK) em 1970.

A FIK foi formada numa reunião em Tokyo à qual compareceram 17 países e regiões com o objectivo de cultivar a boa vontade através da propagação do kendo (incluindo o iaido e jodo). A FIK é responsável pela realização do Campeonato do Mundo de Kendo a cada 3 anos, seminários internacionais, assistência na criação de estruturas federativas em países onde o kendo se começa desenvolver e troca de informação.

Assistiu-se a um aumento sem precedentes no número de praticantes de kendo a partir de meio dos anos 60. Esta popularidade deu origem a inúmeros debates, em particular sobre se o kendo é uma forma tradicional de cultura ou um desporto, questão que, até hoje, alimenta discussões acaloradas, muitas vezes sem uma definição adequada para qualquer um dos lados. Isto acontece, sobretudo, devido à inquestionável ênfase colocada no kendo de competição, particularmente nas escolas secundárias e nas universidades. Isto é encarado por sectores mais conservadores como estando em desacordo com a verdadeira “via” ou essência do budo, na qual vitória e derrota são desvalorizadas face ao objectivo mais importante, o desenvolvimento do carácter do praticante.

Foi com isso em mente que a Federação Japonesa de Kendo decidiu pôr no papel aquilo que o kendo era “idealmente” suposto ser. Em 1975, criaram o Conceito Oficial de Kendo e o Objectivo da Prática:

O CONCEITO DO KENDO
O conceito do kendo é disciplinar o carácter humano através da aplicação dos princípios da katana (espada)

O OBJECTIVO DA PRÁTICA DO KENDO
O objectivo de praticar kendo é:
Moldar a mente e o espírito,
Cultivar um espírito vigoroso
E através de um treino correcto e exigente
Esforçar-se para melhorar na arte do kendo,
Estimar a cortesia humana e a honra,
Associar-se com os outros com sinceridade,
E buscar sempre o auto-melhoramento.
Isso permitirá que se possa:
Amar o seu país e a sociedade,
Contribuir para o desenvolvimento da cultura
E promover a paz e a prosperidade entre os povos.

O KENDO HOJE
Em 2004, o kendo continua a ser uma actividade popular no Japão e no estrangeiro. No entanto, no Japão o número de praticantes continua a decair. Isso pode ser atribuído a uma série de factores, incluindo o problema social da fraca taxa de nascimentos e também à atracção dos jovens pelos desportos profissionais como o basebol e mais recentemente o futebol. Mas há outros problemas que precisam de ser tratados, tal como quão relevante é a suposta tradição do kendo de construção da personalidade “através da aplicação dos princípios da katana”, para pessoas que vivem no século XXI? Tal como mostrei neste artigo, o kendo moderno não é tão antigo como poderia sugerir e muitos modificações foram feitas nas regras, conceitos e técnicas no último século, de forma a facilitar a integração e aceitação do mesmo como uma actividade útil e gratificante. Claro que os tempos mudam, portanto porque é que isso é defendido hoje? Com o que se parecerá o kendo do futuro? Talvez seja melhor deixar a Federação Japonesa de Kendo responder a essas perguntas cruciais para concluir esta breve sinopse da história do kendo moderno. A declaração que se segue foi retirada do site oficial da Federação Japonesa de Kendo. Aqui deixo a mesma na sua forma original (Inglês) para que tirem as vossas conclusões:

 “A Federação Japonesa de Kendo (ZNKR) aposta na promoção do kendo enquanto budo, ou seja, enquanto aspecto distinto da cultura japonesa. Promover o kendo não significa apenas aumentar o número de praticantes ou realizar mais competições. A ZNKR acredita que essa promoção deve envolver a comunicação do “espírito dos Samurai” através de cada treino diário ou competição. O kendo não deve ser apenas promovido como um desporto de competição.

Com isso em mente, há uma coisa que deve ser entendida por todos os praticantes no mundo inteiro. E isso é que através do treino severo de kendo, a nossa esperança é que todos consigam apreender não apenas as componentes técnicas da katana, mas também os aspectos sociais e éticos dos Samurai, tal como o espírito (atitude mental) dos mesmos. Por outras palavras, esperamos que entendam o kendo como budo e que o treinem como tal. Um Shinai é uma espada de Samurai. Keiko-gi e Hakama são a sua roupa oficial. Não devem ser considerados como simples equipamento desportivo. Sem entender este “espírito”, o kendo será apenas um mero exercício físico. Esperamos que tentem entender e apreciar a profundidade e os valores culturais do kendo.

A ZNKR espera promover o que acreditamos ser o autêntico kendo. Gostaríamos de vos pedir o vosso apoio completo e cooperação para as nossas actividades. Obrigado pela vossa atenção.

Jun Takeuchi- Diretor, ZNKR (a cargo dos assuntos Internacionais).”(4)

Há muitas outras áreas que requerem atenção ao mapear o desenvolvimento do kendo. Por exemplo, neste artigo não forneci detalhes sobre a sistematização de waza, dos torneios Tenran Shiai que tinham lugar frente ao Imperador, contribuições de estudantes de kendo, sistemas de competição e arbitragem, de graduações e por aí fora. Esses são tópicos que desenvolverei em detalhe em futuros artigos e no livro detalhado da história do kendo que estou a finalizar. De qualquer maneira, o objectivo deste artigo era dar uma visão geral do percurso do kendo até à data. Para se poder ver o futuro do kendo é preciso compreender o seu passado e eu acredito que isso falta claramente às comunidades de kendo através do mundo, incluindo, atrevo-me a dizê-lo, à japonesa.

Notas finais

  1. A Rebelião de Satsuma, ou Seinan Senso, foi a última grande rebelião armada contra o novo Governo Meiji e as suas reformas. Foi executada por antigos bushi do domínio de Satsuma (actual Prefeitura de Kagoshima) sob a liderança de Saigo Takamori. O levantamento durou de 29 de Janeiro a 24 de Setembro de 1877. A sua repressão provou a eficácia na guerra moderna do novo exército de alistados do governo.
  2. Foi nesta altura que os termos ‘gekiken’ e ‘kenjutsu’ foram substituídos por ‘kendo’. Guttman & Thompson, p. 155, 156.
  3. Political Reorientation of Japan, Setembro 1945 a Setembro 1948; Report. Contribuidores: Comandante Supremo das Forças Aliadas. Government Section- Publicado por: U.S. Govt. Print. Off., Washington, DC. 1949.)
  4. http://www.kendo.or.jp/english-page/english-page2/AJKF-Perspective-of-Kendo.htm, June 20 2004.

Referências
Guttman, A. Thompson L. Japanese Sports: A History, University of Hawaii Press, 2001.
Cameron Hurst III. Armed Martial Arts of Japan: Swordsmanship and Archery, Yale University Press, 1988.
Omichi, H. Yorizumi, K. (ed.) Kindai Budo no Keifu, Kyorin Shoin, 2003.
Nakamura, T. (ed.) Kindai kendo-sho Senshu Vol. 1-10, Hon no Tomosha, 2003.
Kendo Jiten, Shimazu Shobo, 1994.
Kindai Kendo-shi, Shimazu Shobo, 1985.
Tanaka, M. Todo, Y. Higashi, K. Murata, N. Budo wo Shiru, Fumaido Shuppan, 2000.
Watanabe I (ed.) Shiryo Meiji Budo-shi, Shin Jimbutsu Oraisha, 1971.